Meu sonho de pai precisou de mim

“Ô pai! Pai! Paiê!” Coisa melhor para se ouvir eu desconheço. Mesmo quando a atenção requisitada vem em forma de choro ou palavras dificilmente interpretadas por quem não conhece as expressões faciais e corporais associadas ao som. Ah, como meus meninos transformaram minha vida. E para melhor! Me roubaram de mim e me devolveram com o real significado à minha existência simplesmente por permitirem que eu seja quem sou.

João Guilherme, 7 anos, e João Rafael, 2 anos, me transportaram para um plano físico e psicológico de autoavaliação constante, de construção diária da figura do pai que eu sempre sonhei ser. Nesta imersão, eu garanti um olhar mais cauteloso para tudo e, principalmente, a mim. As dores e alegrias ganharam sentido e, hoje, sem qualquer carregamento de culpa, romantizo a paternidade mesmo diante dos desafios e incumbências que ela me impõe.

No início, acompanhado da ansiedade natural da primeira viagem, não abracei interjeições como “Na minha época homem não fazia isso”, “Ele não vai conseguir”, “Isso não é função de homem”… Deixei que todas permanecessem apenas na ignorância alheia e mergulhei em aventuras, erros, acertos. Sobrevivi. O melhor apoio eu tive em casa. Minha esposa Dayane não me imobilizou.

Organizei meu expediente profissional, recusei trabalho que consumia boa parte do tempo e apostei na minha capacidade de dividir com a mãe toda demanda dos pequenos, dia e noite. E, por maior que fosse a dependência à ela que me colocasse no banco de reserva, eu sempre estive ali, não abatido pelo ciúmes ou por não ser a figura prioritária naquele instante. Cúmplice de uma ligação imaculada e à disposição. O que é nosso, é nosso!

Quando meus filhos nasceram, eu nasci. E, a cada dia, eu permito este parto que me amadurece e me constrói em conhecimento e seu consequente acomodamento na tarefa de criar e educar aqueles que sequer vieram acompanhados de manuais de instrução. Não há cartilhas, tutoriais e teorias que me garantam o paternar sem qualquer ônus de preocupação, questionamentos de conduta, avanços, retrocessos e novas autocorreções. Eu faço minhas escolhas! E nesta decisão, deixo para trás conceitos e práticas do ciclo vicioso do machismo, da comunicação violenta, do educar pelo medo, do silenciar diante da dor, das perdas, dos temores… Sem clausura de sentimentos!

O desenvolvimento infantil é incrível e se apropriar da tarefa de lapidação do ser humano é um ato de responsabilidade. Criança clama por limites e amor, numa proporção equilibrada. Com dois pequenos, em idades diferentes, a cada um a sua fatia de investimento naquela fração de tempo. A eles, meu anseio de ser um papai mais participativo e menos permissivo ou autoritário. Nem demais, nem de menos… O suficiente! Aliás, é sonho de pai!

 

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